Por que a Coreia do Sul registra a menor taxa de natalidade do mundo

2026-06-23

Questão central: quão baixa é a taxa de natalidade da Coreia do Sul

A Coreia do Sul há muito tempo é citada como o país com a menor taxa de natalidade do mundo. Em comparações internacionais, a taxa de fecundidade total da Coreia costuma ficar em um nível inferior não apenas ao dos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas também ao de vários países desenvolvidos que enfrentaram a redução populacional antes. Isso significa mais do que simplesmente “ter poucos filhos”: indica que a situação em que uma geração não consegue substituir adequadamente a seguinte vem se prolongando.

Em geral, considera-se que, para a população se manter no longo prazo, o número de filhos que uma mulher tem ao longo da vida precisa ser de cerca de 2,1 filhos. No entanto, a Coreia ficou por muito tempo bem abaixo desse patamar, e como resultado surgiram simultaneamente problemas como a queda no número de nascimentos, a redução da população em idade escolar, a preocupação com o desaparecimento de regiões do interior e a diminuição da população em idade produtiva. A baixa natalidade na Coreia chama atenção internacionalmente não por ser apenas uma questão de escolha individual, mas porque é o resultado combinado de estrutura econômica, mercado de trabalho, ambiente habitacional e cultura familiar.

Indicadores-chave para entender a natalidade

Para analisar corretamente o problema da natalidade, é preciso distinguir e compreender alguns dados básicos.

  • Taxa de fecundidade total (TFR): número médio de filhos que uma mulher deve ter ao longo do período fértil. É o indicador mais usado em comparações internacionais.
  • Número de nascimentos: quantidade real de crianças nascidas em um ano. Mesmo que a taxa de fecundidade seja a mesma, o número de nascimentos pode cair se a população em idade fértil diminuir.
  • Taxa bruta de natalidade: número de nascimentos por 1.000 habitantes. Mostra a escala dos nascimentos em relação à população total.
  • Estrutura populacional: distribuição da população por faixa etária. Se os jovens diminuem e os idosos aumentam, a base para a natalidade também enfraquece no longo prazo.

Esses indicadores estão interligados. Por exemplo, na Coreia do Sul, além de a taxa de fecundidade total ser baixa, a própria população em idade de ter filhos também está diminuindo. Portanto, mesmo que a taxa de fecundidade permaneça no mesmo nível, o número de nascimentos pode cair ainda mais rapidamente. Por causa dessa estrutura, a baixa natalidade se torna um problema cada vez mais difícil de resolver com o passar do tempo.

O peso real dos custos de moradia, educação e criação dos filhos

Uma das razões mais frequentemente apontadas para a baixa natalidade na Coreia é o alto custo de ter e criar filhos. Em especial, o peso da moradia, concentrado na região metropolitana de Seul, dificulta até mesmo o ponto de partida para o casamento e a maternidade/paternidade.

Para muitos jovens, conseguir uma moradia estável é visto quase como pré-requisito para casar. Mas os altos preços dos imóveis e o peso do aluguel mensal ou do sistema de depósito e aluguel atrasam a independência, o que por sua vez leva ao aumento da idade ao casar. Quanto mais tarde o casamento, mais adiante fica o momento do primeiro filho e, consequentemente, maior a chance de o número total de filhos diminuir.

O custo da educação também é muito alto. Na sociedade coreana, a competição por aulas particulares além da educação pública é muito intensa. Muitos pais passam a encarar ter filhos não apenas como uma questão de sustento, mas como uma pergunta sobre “seremos capazes de oferecer apoio suficiente?”. Por isso, surgem escolhas como reduzir o número de filhos ou adiar a decisão de ter crianças.

Os custos de criação e de cuidado também não podem ser ignorados.

  • custo de creches e jardins de infância
  • lacunas no cuidado após o horário escolar
  • custos adicionais de cuidado para famílias com dupla renda
  • custos de longo prazo com doença, educação e ampliação da moradia

No fim, muitas famílias sentem que já é difícil até criar bem um único filho, e ter o segundo ou o terceiro se torna uma escolha ainda mais difícil.

Empregos instáveis e a incerteza sobre o futuro da geração jovem

Ter filhos é uma decisão que exige alguma expectativa em relação ao futuro. No entanto, a geração jovem da Coreia sente fortemente a insegurança no emprego e a incerteza de renda. A diferença entre empregos efetivos e temporários, a disparidade salarial entre grandes empresas e pequenas e médias empresas, e a intensificação da competição por vagas são fatores importantes que atrasam o casamento e a natalidade.

Especialmente se, no início da vida profissional, a pessoa não consegue um emprego estável, seus planos de moradia, casamento e filhos acabam sendo adiados. Quanto mais tempo alguém permanece em contratos de curto prazo ou em trabalho precário, mais difícil fica planejar uma família no longo prazo. Somando-se a isso a alta dos preços e a estagnação da renda real, cresce a ansiedade: “será que é seguro ter um filho agora?”.

A cultura de longas jornadas de trabalho também é um problema. A Coreia melhorou em relação ao passado, mas ainda mantém uma forte cultura de trabalho centrada no emprego. Se o horário de saída é tarde, se é difícil ter um trabalho previsível e se não há liberdade para usar férias, fica complicado conciliar namoro, casamento e criação dos filhos. No fim, muitos jovens não adiam a natalidade porque não querem filhos, mas porque não enxergam um futuro viável e sustentável.

Mudanças de valores sobre casamento e família

A queda da natalidade não pode ser explicada apenas por razões econômicas. Na sociedade coreana, os valores em torno do casamento e da família também estão mudando rapidamente. No passado, casamento e filhos eram vistos como etapas naturais da vida adulta; agora, são percebidos como uma entre várias formas possíveis de viver.

Cresce o número de pessoas que optam por não se casar, e mesmo entre os casados diminui a pressão de que necessariamente devam ter filhos. À medida que aumentam a valorização da felicidade individual, do desenvolvimento pessoal, do lazer, da carreira e da qualidade das relações, ter filhos deixa de ser uma obrigação óbvia.

Outra mudança importante é o aumento das expectativas em relação à igualdade de gênero. Muitas mulheres não avaliam apenas o casamento em si, mas também o quanto as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos serão divididos de forma justa após o casamento. Os homens também sentem fortemente o peso do papel tradicional de provedor. Em outras palavras, a mudança de valores em torno do casamento e da natalidade não é apenas uma expansão do individualismo, mas também um sinal de que o modelo familiar tradicional já não parece atraente.

Interrupção de carreira e a dificuldade de conciliar trabalho e família

Ao entender a baixa natalidade na Coreia, um fator especialmente importante é o risco de interrupção da carreira das mulheres. Muitas mulheres avaliam que o parto e a criação dos filhos podem causar grandes perdas em sua trajetória profissional. De fato, têm sido apontados repetidamente problemas como redução das chances de promoção, exclusão de tarefas e dificuldade de reinserção no mercado após o parto.

Mesmo quando existe licença parental, muitas vezes ela não pode ser usada livremente na prática. Em empresas menores ou em organizações com pouca margem de pessoal, o uso da licença costuma gerar constrangimento, e não são poucos os casos de preocupação com desvantagens após o retorno. O uso da licença parental pelos homens também vem aumentando, mas ainda não pode ser considerado plenamente consolidado, devido à cultura organizacional e ao receio de redução de renda.

Esse problema não é apenas uma questão de escolha individual das mulheres. Se, no momento em que uma criança nasce, a responsabilidade pelo cuidado se concentra em um dos lados — em geral, na mulher —, fica difícil aumentar a taxa de natalidade. É preciso haver confiança de que trabalho e família podem ser mantidos ao mesmo tempo para que a decisão de ter filhos seja possível. Portanto, o problema da baixa natalidade está diretamente ligado à igualdade de gênero no mercado de trabalho.

Por que as políticas governamentais de incentivo à natalidade tiveram efeito limitado

O governo coreano implementou, ao longo de muitos anos, diversas políticas para enfrentar a baixa natalidade. Entre as principais estão subsídios ao nascimento, auxílio infantil, apoio à creche, benefícios fiscais e apoio à fertilização. Ainda assim, muitos avaliam que o efeito percebido foi limitado.

A principal razão é que o núcleo do problema não é simplesmente a falta de dinheiro em espécie. Subsídios pontuais podem aliviar os custos iniciais do nascimento, mas o que as pessoas mais ponderam é estabilidade habitacional, perspectiva de renda de longo prazo, possibilidade de manter a carreira, infraestrutura de cuidado e o peso da competição educacional. Se a insegurança estrutural não for resolvida, é difícil mudar a decisão de ter filhos apenas com apoio financeiro.

Outra limitação é que as políticas foram operadas de forma fragmentada.

  • falta de articulação entre política habitacional e política de natalidade
  • diferença entre a redução da jornada de trabalho e a percepção real no cotidiano do apoio à criação dos filhos
  • insuficiência no enfrentamento da concentração em Seul e da extinção das regiões do interior
  • ritmo lento na disseminação de uma cultura de cuidado igualitária entre homens e mulheres

Ou seja, a baixa natalidade não é um problema que possa ser resolvido por um único ministério ou por um orçamento de curto prazo. Se as condições gerais de vida não mudarem, o efeito das políticas também será necessariamente limitado.

O que precisa mudar daqui para frente para que a natalidade volte a subir

Para que a natalidade volte a crescer, a prioridade não deve ser apenas incentivar, mas construir uma sociedade em que ter filhos não destrua a vida das pessoas. O ponto central é fazer com que casamento e filhos sejam percebidos não como “sacrifício”, mas como uma escolha viável e sustentável.

Primeiro, a estabilidade habitacional é essencial. É preciso ampliar a oferta de moradias e a estabilidade do aluguel para que jovens e recém-casados possam viver sem um peso excessivo de dívida. Segundo, é necessária uma reforma no mercado de trabalho. Devem ser garantidos empregos estáveis, horários previsíveis, redução das longas jornadas e o uso efetivo da licença parental.

Terceiro, a infraestrutura de cuidado precisa ser fortalecida de forma capilar. Além da expansão das creches, o cuidado no ensino fundamental, o cuidado emergencial e os serviços comunitários de cuidado também devem se desenvolver para reduzir o peso sobre as famílias com dupla renda. Quarto, é preciso consolidar uma cultura familiar igualitária. Se a estrutura em que as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos recaem sobre as mulheres não mudar, será difícil recuperar a natalidade.

Por fim, o desenvolvimento equilibrado das regiões também é importante. Se empregos, educação, saúde e recursos culturais continuarem excessivamente concentrados na região metropolitana de Seul, os custos de moradia e a pressão competitiva seguirão aumentando. Só quando for possível planejar uma vida estável também fora da capital é que a base social para a natalidade se ampliará.

A baixa natalidade da Coreia não é simplesmente o resultado de as pessoas não quererem filhos. Ela é o reflexo de uma estrutura social em que se acumulam moradia cara, competição intensa, empregos instáveis, desequilíbrio de gênero e falta de cuidado. Portanto, a solução também precisa ser de longo prazo e estrutural. Para aumentar a natalidade, antes de tudo é preciso construir uma sociedade em que as pessoas possam confiar no futuro.

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